2.1.2 COMO APARECE UMA NOVA FASE TERMODINÂMICA E DESAPARECE A ANTIGA?


Em vários casos, uma nova fase não se forma instantaneamente, com seu tamanho definitivo, dentro de uma solução supersaturada. O crescimento da nova partícula ocorre por transferência de material para um núcleo que cresce, até que a transformação global se complete.

Quando surge uma pequena região de uma nova e estável fase, espera-se um decréscimo da energia livre (∆G) por unidade de volume, o que contribui para a estabilidade da região. Energia Livre foi um conceito proposto por Josiah Williard Gibbs (1839-1903) e expressa a quantidade de energia disponível que um corpo possuí para reagir físico-químicamente.

Mas a região é limitada por uma superfície e tal superfície tem associada a ela, pelo menos, uma energia livre positiva, por unidade de área.
A equação 1 descreve esse conceito associando-o a entalpia H (energia interna) e entropia S (energia associada ao grau de ordem da configuração):

\[ \triangle G=\triangle H-T \triangle S \tag{1.1} \]

Onde ∆G é a variação da energia livre, ∆H é a variação da entalpia (a energia interna do corpo), T é a temperatura absoluta (medida em Kelvin, °K) e ∆S é a variação de entropia.

Por essa teoria, as variações do valor da energia livre negativas (∆G<0) indicam reações espontaneas como é o caso do fenômeno da difusão atômica e molecular, responsável pela nucleacão e crescimento. (∆G>0) indica que a reação não é espontânea e ∆G=0 indica a existência de equilíbrio no sistema.

No caso da nucleação, a energia livre do sistema possui dois componentes: ∆GV e ∆GS, GV é a porção de energia livre relacionada com a criação de volume e GS é a porção de energia livre relacionada com a criação de superfície. Assim, embora a substituição da antiga fase pela nova seja acompanhada por um decréscimo de energia livre do sistema, a existência de uma superfície entre as duas fases produz um aumento da energia livre.

energia livre - gif

Figura 1.2

Na superfície dos agregados, átomos ou moléculas interagem menos com os primeiros vizinhos externos ao embrião. Então a GS é sempre um termo positivo e atua desestabilizando o núcleo, especialmente quando a maioria das átomos reside na superfície do embrião. Nesse caso, o agregado é altamente instável. Mas se o núcleo atinge tamanho suficiente (o tamanho crítico), a queda na energia livre associada à formação de volume se torna suficiente para que a relação SuperfícieVolume reduza de valor. Como foi dito, há um tamanho intermediário onde a energia livre do sistema (G) decresce quer o núcleo aumente ou dissolva – o tamanho crítico.

Cubos

Figura 1.3- Diminuição da relação superfície/volume na medida em que aumenta o volume de um sólido. Essa relação é imprescindível na obtenção de um equilíbrio entre a energia livre associada aos átomos da superfície de um agregado atômico e a energia livre associada aos átomos do volume desse mesmo agregado. A taxa superfície/volume também relaciona-se à viabilidade metabólica dos organismos – enquanto a área superficial refere-se à interface entre o organismo e o ambiente (e é, por consequência, o principal meio por onde os organismos perdem calor), o volume atende pela capacidade do organismo de gerar calor. Assim, quanto maior essa relação, mais difícil é a manutenção do mínimo energético necessário ao funcionamento orgânico básico. Por isso, pequenos vertebrados (como roedores, morcegos e beija-flores ditos “anões”) investem quase todo o período de vigília na obtenção de recursos nutricionais.

A existência de um tamanho crítico para a nucleação de uma nova fase implica que a nucleação pode ser controlada pela modulação do tamanho crítico. Variando a composição da solução ou alterando as variáveis de estado (pressão, temperatura, volume) do sistema há a possibilidade de intervir na nucleação – o que pode explicar como os organismos controlam a nucleação de fases minerais a partir do controle fisiológico das concentrações iônicas nas vesículas intracelulares e nos micro-ambientes externos destinados à mineralização.

Como será visto no tópico Nucleação Hetrogênea a presença de superfícies (como as fases orgânicas insolúveis – presentes nas conchas, ossos e carapaças) facilita a nucleação porque, geralmente, a energia interfacial entre os núcleos cristalinos e um substrato sólido é menor que aquela da interface entre os embriões cristalinos e a solução.

As duas etapas principais de uma transformação de fase, Nucleação e Crescimento, podem ser subdivididas em várias subetapas e deve-se esperar que cada etapa possua uma energia de ativação – a quantidade de energia que deve ser fornecida ao sistema, entre outros exemplos, pelo a- aumento de temperatura, b- alteração do pH em ambientes de dimensões micrométricas, como em microfluídica, ou c- energia de superfície, de fisissorção, por exemplo, no espaço extrapalial em moluscos bivalves para que o fenômeno ocorra. Usualmente uma das etapas ocorre mais lentamente que as outras, sendo esta etapa a que limita a velocidade global do processo. A nucleação pode envolver a) reunião de certas espécies de átomos (ou moléculas) por difusão ou outros tipos de transporte, b) a formação de uma ou mais estruturas intermediárias instáveis e a formação de núcleos da nova fase. O crescimento pode envolver a transferência de material para o interior da nova fase, por difusão, seja através da antiga fase seja através do contorno de grão1.


1Contorno de grão é um termo técnico em Ciência dos Materiais: são as imperfeições superficiais que separam cristais de diferentes orientações, num agregado policristalino.